07/11/2021
Ciguatera
É o envenenamento provocado pela ingestão da carne de várias espécies de peixes tropicais que têm seu habitat nos recifes coralinos. É considerada uma das mais sérias formas de envenenamento por peixe. Ao comer um peixe envenenado, o homem fecha a cadeia alimentar onde há a ocorrência da toxina. A cadeia começa com uma microalga que produz a ciguatoxina e vive na superfície de algumas algas. As microalgas são comidas, diretamente, pelos invertebrados filtradores e pelos peixes herbívoros e onívoros que se alimentam de algas, e, indiretamente, pelos peixes carnívoros que se alimentam dos invertebrados e dos peixes herbívoros ou onívoros. Como a ciguatoxina é cumulativa no organismo dos seres ao longo da cadeia alimentar, na medida em que se sobe na cadeia, maior a quantidade de toxina acumulada. Assim, um peixe carnívoro terá, provavelmente, maior quantidade acumulada do que um herbívoro. Das espécies de peixes implicadas com esse tipo de envenenamento (mais de 400 em todo o mundo) a maioria possui alto valor comercial para a alimentação humana e constitui a base de muitas indústrias pesqueiras e peixarias locais. Normalmente, essas espécies estão livres da contaminação (boas para a alimentação). Porém, em determinadas áreas e épocas do ano, as mesmas espécies podem vir a ficar venenosas, em função da maior proliferação dessas microalgas, e permanecer venenosas por vários anos, já que a toxina não é eliminada de seus organismos. Dessa forma, torna-se difícil prever quando e onde a intoxicação ciguatera irá ocorrer. A intoxicação ciguatera costuma aparecer nas regiões tropicais e subtropicais (o que inclui o norte e nordeste brasileiros), porém a maior incidência se dá junto às ilhas do Pacífico Tropical, Caribe e mares da Índia. A seguir são apresentadas algumas famílias de peixes envolvidos em registros de ciguatera, com ocorrência em nosso litoral. Albulidae (Albula vulpes, Ubarana-focinho-de-rato) - carnívoros; Serranidae (Mycteroperca venenosa, Badejo-ferro) - carnívoros; Carangidae (Caranx hippos, Xaréu) - carnívoros; Lutjanidae (gênero Lutjanus, vermelhos) - carnívoros; Sparidae (Pagrus pagrus, Pargo) - carnívoros; Sphyraenidae (Sphyraena barracuda, Barracuda) - carnívoros; Scaridae (Scarus coeruleus, Budião-azul) - onívoros; Scombridae (gêneros Acanthocybium, Euthynnus, Sarda, e Scomberomorus ; cavalas e bonitos) - carnívoros; Monacanthidae (Aluterus scriptus, Cangulo-pavão) - onívoros; Ostraciidae (Lactophrys trigonus, Baiacu-cofre) - onívoros.
Aspectos Médicos
A vítima normalmente percebe os primeiros sintomas da ciguatera, desde uma leve sensação de formigamento ou coceira na boca até a paralisia muscular, dentro das primeiras doze horas após a ingestão da carne do peixe envenenado. No entanto, os sintomas costumam aparecer com maior frequência no período compreendido entre alguns minutos e cinco horas após o consumo. Entre os sintomas neurológicos mais comuns estão, as sensações de formigamento (na boca, face, mãos e pés), irregulares inversões de quente e frio, tonteira, gosto metálico na boca, dor muscular nas extremidades e dor nas articulações. Nos casos mais severos, pode ocorrer o coma e a morte. As dores abdominais, diarreias, náuseas e vômitos são sintomas menos comuns. Apesar de os sintomas neurológicos serem usualmente mais severos nos primeiros seis a dez dias, muitas vítimas podem queixar-se desses sintomas por períodos prolongados, que as vezes persistem por meses ou anos. Mesmo após curadas, algumas vítimas podem apresentar a recorrência dos sintomas ao ingerir algum tipo de alimento preparado com peixe.
Prevenção
A ingestão de peixes envenenados, quer cozidos ou crus, pode produzir a intoxicação ciguatera (a toxina não é eliminada com o cozimento). Assim, deve-se sempre dar preferência às peixarias e restaurantes conhecidos e confiáveis. Não existe um teste diagnóstico para a vítima. Em contrapartida, algumas regiões mais afetadas realizam testes periódicos para a ciguatera em peixes suspeitos. Como a ciguatera é comum a certas áreas tropicais, informar-se a esse respeito junto à população local, antes de comer um peixe, é bastante recomendável.
Tratamento
O tratamento da intoxicação ciguatera é essencialmente de suporte, baseado nos sintomas apresentados pela vítima. Vários tratamentos já foram sugeridos, porém nenhum comprovou pleno sucesso. A lavagem gástrica seguida pela ingestão de carvão ativado em solução de sorbitol possui um valor apenas limitado e, ainda assim, somente se administrado dentro das três primeiras horas após a intoxicação. As náuseas e vômitos podem ser controlados com antieméticos. O maior problema sistêmico é a hipotensão. Nesse caso, o recomendável é a administração intravenosa de gluconato de cálcio. A arritmia que leva à insuficiência cardíaca e à hipotensão responde bem à administração de atropina intravenosa. Durante a recuperação da intoxicação, a vítima deve excluir de sua dieta os seguintes alimentos: peixes e frutos do mar, bebidas alcoólicas e nozes e seus óleos. A ingestão desses alimentos pode resultar na exacerbação da síndrome da ciguatera.
É o envenenamento provocado pela ingestão da carne de apenas alguns peixes específicos, com excelente valor comercial, que não foram corretamente conservados após a captura. Esse tipo de intoxicação envolve, predominantemente, os peixes da família Scombridae (atuns, bonitos, cavalas e cavalinhas) e alguns peixes de outras famílias, como a enchova (Pomatomidae) e a sardinha (Clupeidae).
Aspectos Médicos
A toxina, chamada de escombrotoxina, é formada basicamente pela histamina e suas variantes e se desenvolve na carne do peixe através da atividade bacteriana que a decompõe __ níveis perigosos da toxina podem ser produzidos em até seis horas após a morte do peixe mal conservado. Por razões ainda não conhecidas, a histamina ingerida junto com a carne do peixe deteriorada é muito mais tóxica do que a ingestão do preparado químico da histamina em solução aquosa. Acredita-se que este fato se deve à presença de agentes potencializadores da toxidade da histamina, como a cadaverina e a putrescina, encontrados na carne dos peixes em estado de decomposição. Esta é a única forma documentada de ichthyosarcotoxismo na qual bactérias (que decompoem a carne do peixe) estão diretamente relacionadas com a produção da toxina dentro do corpo do peixe. Entretanto, o tipo de envenenamento aqui tratado, que só costuma ocorrer nas espécies já descritas, não pode ser confundido com a tradicional intoxicação bacteriana que ocorre quando se ingere a carne de um peixe qualquer mal conservado. A vítima pode apresentar os seguintes sintomas, alguns minutos após a ingestão da carne contaminada: coceira e sensação de queimação em torno da boca, sede, vermelhidão da pele, urticária, queixas gastrointestinais, dor de cabeça, vertigens, náuseas, vômitos, palpitações e rápidas acelerações do batimento cardíaco. Apesar de normalmente brandos, estes sintomas costumam durar de quatro a seis horas. Nos casos mais sérios, podem ocorrer ainda queda da pressão sanguínea, dificuldades respiratórias e choque.
Prevenção
Esses peixes são normalmente livres de qualquer problema para a alimentação humana quando preservados em boas condições de refrigeração após a sua pesca. A intoxicação só ocorre quando há má conservação do pescado. Assim, quando for comprar um dos peixes já descritos, prefira os varejistas que os armazenam em compartimentos bem refrigerados. Os pescadores amadores, por sua vez, devem ter muito gelo para a posterior conservação dos peixes capturados. Em casa, mantenha os peixes na geladeira ou no congelador. Um indicativo de que a carne possa estar contaminada pela escombrotoxina é o gosto apimentado que a última confere à carne ainda crua. Nesse tipo de envenenamento, o cozimento também não elimina as toxinas.
Tratamento
O tratamento desta intoxicação visa reverter os efeitos da histamina no organismo humano. As intoxicações leves podem ser tratadas com antihistamínicos como a difenidramina ou a hidroxizina intravenosa e com antieméticos. A terapia de suporte poderá, se necessária, incluir epinefrina subcutânea, inalantes com broncodilatadores, esteroides intravenosos e controle da pressão arterial. Nos casos de forte intoxicação, em que há o consumo de grande quantidade do peixe intoxicado, a lavagem estomacal seguida da administração de carvão ativado (se a vítima ainda não teve diarreia) pode ser de grande valia na posterior recuperação. Entretanto, estes procedimentos só devem ser utilizados dentro da primeira hora após a intoxicação. As náuseas e vômitos podem também ser controlados com difenidramina. Porém, ocasionalmente, pode ser necessário o uso de antieméticos específicos, como a proclorperazina intravenosa. Quando as complicações alérgicas e gastroentéricas são severas, o efeito cumulativo pode induzir a hipotensão. O que irá requerer uma terapia de suporte para o sistema cardiorrespiratório e para evitar o choque da vítima.
Gempylídeos
É o envenenamento provocado pela ingestão da carne dos peixes da família Gempylidae. Ainda assim, a espécie da família mais implicada com esse tipo de intoxicação é a Enchova-preta (Ruvettus pretiosus). Esse tipo de envenenamento, ainda pouco estudado, costuma provocar uma diarreia moderada que pode ser controlada com os medicamentos adequados. Acredita-se que este descontrole intestinal seja uma resposta do organismo humano à constituição oleosa da carne dos peixes dessa família.
Tetraodontídeos
É o envenenamento provocado pela ingestão da carne de algumas espécies de baiacu (família Tetraodontidae), baiacu-de-espinho (família Diodontidae) e peixe-lua (família Molidae).
Outros Peixes
Além dos peixes já citados, a moreia, o peixe-cofre, o peixe-porco e o mamangá-liso podem, ocasionalmente, produzir o envenenamento quando ingeridos com a pele. Assim, por precaução, deve-se sempre retirar a pele desses animais antes do consumo. As gônodas dos bagres podem apresentar-se sazonalmente tóxicas para o consumo e devem sempre ser descartadas. O tratamento nestes casos deve ser de acordo com a sintomatologia apresentada pela vítima.
* Marcelo Szpilman é Biólogo Marinho, Diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor do Informativo do Instituto e autor dos livros Guia Aqualung de Peixes e Seres Marinhos Perigosos.
Seres marinhos perigosos Animais Venenosos II
Matéria publicada no Informativo n° 10, novembro/dezembro de 1996
Texto de Marcelo Szpilman*
Texto de Marcelo Szpilman*
Ciguatera
É o envenenamento provocado pela ingestão da carne de várias espécies de peixes tropicais que têm seu habitat nos recifes coralinos. É considerada uma das mais sérias formas de envenenamento por peixe. Ao comer um peixe envenenado, o homem fecha a cadeia alimentar onde há a ocorrência da toxina. A cadeia começa com uma microalga que produz a ciguatoxina e vive na superfície de algumas algas. As microalgas são comidas, diretamente, pelos invertebrados filtradores e pelos peixes herbívoros e onívoros que se alimentam de algas, e, indiretamente, pelos peixes carnívoros que se alimentam dos invertebrados e dos peixes herbívoros ou onívoros. Como a ciguatoxina é cumulativa no organismo dos seres ao longo da cadeia alimentar, na medida em que se sobe na cadeia, maior a quantidade de toxina acumulada. Assim, um peixe carnívoro terá, provavelmente, maior quantidade acumulada do que um herbívoro. Das espécies de peixes implicadas com esse tipo de envenenamento (mais de 400 em todo o mundo) a maioria possui alto valor comercial para a alimentação humana e constitui a base de muitas indústrias pesqueiras e peixarias locais. Normalmente, essas espécies estão livres da contaminação (boas para a alimentação). Porém, em determinadas áreas e épocas do ano, as mesmas espécies podem vir a ficar venenosas, em função da maior proliferação dessas microalgas, e permanecer venenosas por vários anos, já que a toxina não é eliminada de seus organismos. Dessa forma, torna-se difícil prever quando e onde a intoxicação ciguatera irá ocorrer. A intoxicação ciguatera costuma aparecer nas regiões tropicais e subtropicais (o que inclui o norte e nordeste brasileiros), porém a maior incidência se dá junto às ilhas do Pacífico Tropical, Caribe e mares da Índia. A seguir são apresentadas algumas famílias de peixes envolvidos em registros de ciguatera, com ocorrência em nosso litoral. Albulidae (Albula vulpes, Ubarana-focinho-de-rato) - carnívoros; Serranidae (Mycteroperca venenosa, Badejo-ferro) - carnívoros; Carangidae (Caranx hippos, Xaréu) - carnívoros; Lutjanidae (gênero Lutjanus, vermelhos) - carnívoros; Sparidae (Pagrus pagrus, Pargo) - carnívoros; Sphyraenidae (Sphyraena barracuda, Barracuda) - carnívoros; Scaridae (Scarus coeruleus, Budião-azul) - onívoros; Scombridae (gêneros Acanthocybium, Euthynnus, Sarda, e Scomberomorus ; cavalas e bonitos) - carnívoros; Monacanthidae (Aluterus scriptus, Cangulo-pavão) - onívoros; Ostraciidae (Lactophrys trigonus, Baiacu-cofre) - onívoros.
Aspectos Médicos
A vítima normalmente percebe os primeiros sintomas da ciguatera, desde uma leve sensação de formigamento ou coceira na boca até a paralisia muscular, dentro das primeiras doze horas após a ingestão da carne do peixe envenenado. No entanto, os sintomas costumam aparecer com maior frequência no período compreendido entre alguns minutos e cinco horas após o consumo. Entre os sintomas neurológicos mais comuns estão, as sensações de formigamento (na boca, face, mãos e pés), irregulares inversões de quente e frio, tonteira, gosto metálico na boca, dor muscular nas extremidades e dor nas articulações. Nos casos mais severos, pode ocorrer o coma e a morte. As dores abdominais, diarreias, náuseas e vômitos são sintomas menos comuns. Apesar de os sintomas neurológicos serem usualmente mais severos nos primeiros seis a dez dias, muitas vítimas podem queixar-se desses sintomas por períodos prolongados, que as vezes persistem por meses ou anos. Mesmo após curadas, algumas vítimas podem apresentar a recorrência dos sintomas ao ingerir algum tipo de alimento preparado com peixe.
Prevenção
A ingestão de peixes envenenados, quer cozidos ou crus, pode produzir a intoxicação ciguatera (a toxina não é eliminada com o cozimento). Assim, deve-se sempre dar preferência às peixarias e restaurantes conhecidos e confiáveis. Não existe um teste diagnóstico para a vítima. Em contrapartida, algumas regiões mais afetadas realizam testes periódicos para a ciguatera em peixes suspeitos. Como a ciguatera é comum a certas áreas tropicais, informar-se a esse respeito junto à população local, antes de comer um peixe, é bastante recomendável.
Tratamento
O tratamento da intoxicação ciguatera é essencialmente de suporte, baseado nos sintomas apresentados pela vítima. Vários tratamentos já foram sugeridos, porém nenhum comprovou pleno sucesso. A lavagem gástrica seguida pela ingestão de carvão ativado em solução de sorbitol possui um valor apenas limitado e, ainda assim, somente se administrado dentro das três primeiras horas após a intoxicação. As náuseas e vômitos podem ser controlados com antieméticos. O maior problema sistêmico é a hipotensão. Nesse caso, o recomendável é a administração intravenosa de gluconato de cálcio. A arritmia que leva à insuficiência cardíaca e à hipotensão responde bem à administração de atropina intravenosa. Durante a recuperação da intoxicação, a vítima deve excluir de sua dieta os seguintes alimentos: peixes e frutos do mar, bebidas alcoólicas e nozes e seus óleos. A ingestão desses alimentos pode resultar na exacerbação da síndrome da ciguatera.
Escombrídeos
É o envenenamento provocado pela ingestão da carne de apenas alguns peixes específicos, com excelente valor comercial, que não foram corretamente conservados após a captura. Esse tipo de intoxicação envolve, predominantemente, os peixes da família Scombridae (atuns, bonitos, cavalas e cavalinhas) e alguns peixes de outras famílias, como a enchova (Pomatomidae) e a sardinha (Clupeidae).
Aspectos Médicos
A toxina, chamada de escombrotoxina, é formada basicamente pela histamina e suas variantes e se desenvolve na carne do peixe através da atividade bacteriana que a decompõe __ níveis perigosos da toxina podem ser produzidos em até seis horas após a morte do peixe mal conservado. Por razões ainda não conhecidas, a histamina ingerida junto com a carne do peixe deteriorada é muito mais tóxica do que a ingestão do preparado químico da histamina em solução aquosa. Acredita-se que este fato se deve à presença de agentes potencializadores da toxidade da histamina, como a cadaverina e a putrescina, encontrados na carne dos peixes em estado de decomposição. Esta é a única forma documentada de ichthyosarcotoxismo na qual bactérias (que decompoem a carne do peixe) estão diretamente relacionadas com a produção da toxina dentro do corpo do peixe. Entretanto, o tipo de envenenamento aqui tratado, que só costuma ocorrer nas espécies já descritas, não pode ser confundido com a tradicional intoxicação bacteriana que ocorre quando se ingere a carne de um peixe qualquer mal conservado. A vítima pode apresentar os seguintes sintomas, alguns minutos após a ingestão da carne contaminada: coceira e sensação de queimação em torno da boca, sede, vermelhidão da pele, urticária, queixas gastrointestinais, dor de cabeça, vertigens, náuseas, vômitos, palpitações e rápidas acelerações do batimento cardíaco. Apesar de normalmente brandos, estes sintomas costumam durar de quatro a seis horas. Nos casos mais sérios, podem ocorrer ainda queda da pressão sanguínea, dificuldades respiratórias e choque.
Prevenção
Esses peixes são normalmente livres de qualquer problema para a alimentação humana quando preservados em boas condições de refrigeração após a sua pesca. A intoxicação só ocorre quando há má conservação do pescado. Assim, quando for comprar um dos peixes já descritos, prefira os varejistas que os armazenam em compartimentos bem refrigerados. Os pescadores amadores, por sua vez, devem ter muito gelo para a posterior conservação dos peixes capturados. Em casa, mantenha os peixes na geladeira ou no congelador. Um indicativo de que a carne possa estar contaminada pela escombrotoxina é o gosto apimentado que a última confere à carne ainda crua. Nesse tipo de envenenamento, o cozimento também não elimina as toxinas.
Tratamento
O tratamento desta intoxicação visa reverter os efeitos da histamina no organismo humano. As intoxicações leves podem ser tratadas com antihistamínicos como a difenidramina ou a hidroxizina intravenosa e com antieméticos. A terapia de suporte poderá, se necessária, incluir epinefrina subcutânea, inalantes com broncodilatadores, esteroides intravenosos e controle da pressão arterial. Nos casos de forte intoxicação, em que há o consumo de grande quantidade do peixe intoxicado, a lavagem estomacal seguida da administração de carvão ativado (se a vítima ainda não teve diarreia) pode ser de grande valia na posterior recuperação. Entretanto, estes procedimentos só devem ser utilizados dentro da primeira hora após a intoxicação. As náuseas e vômitos podem também ser controlados com difenidramina. Porém, ocasionalmente, pode ser necessário o uso de antieméticos específicos, como a proclorperazina intravenosa. Quando as complicações alérgicas e gastroentéricas são severas, o efeito cumulativo pode induzir a hipotensão. O que irá requerer uma terapia de suporte para o sistema cardiorrespiratório e para evitar o choque da vítima.
Gempylídeos
É o envenenamento provocado pela ingestão da carne dos peixes da família Gempylidae. Ainda assim, a espécie da família mais implicada com esse tipo de intoxicação é a Enchova-preta (Ruvettus pretiosus). Esse tipo de envenenamento, ainda pouco estudado, costuma provocar uma diarreia moderada que pode ser controlada com os medicamentos adequados. Acredita-se que este descontrole intestinal seja uma resposta do organismo humano à constituição oleosa da carne dos peixes dessa família.
Tetraodontídeos
É o envenenamento provocado pela ingestão da carne de algumas espécies de baiacu (família Tetraodontidae), baiacu-de-espinho (família Diodontidae) e peixe-lua (família Molidae).
Em Tóquio, desde 1958, os candidatos a “chef” são submetidos a um teste no qual preparam o baiacu, a fim de avaliar as suas capacidades. A duração da preparação é de 20 minutos durante os quais dissecam o peixe, o separam em partes comestíveis e não comestíveis, as identificam com etiquetas e montam um belo prato de fugu.
Esse tipo de envenenamento é uma das mais sérias formas de intoxicação. Dentre todos os seres marinhos venenosos, os baiacus estão entre os mais perigosos. O potente veneno, (tetrodotoxina) que está normalmente contido no fígado, no intestino, nas gônadas e na pele de algumas espécies, dependendo da época do ano, pode, quando ingerido em altas doses, provocar uma morte bastante rápida __ em até 15 minutos após a ingestão. No Japão, onde é chamado de "fugu", o baiacu é considerado uma iguaria. Pode ser encontrado em restaurantes especializados onde os chefes, experientes e altamente treinados, o preparam cuidadosamente para torná-lo bom para o consumo de seus fregueses. Os japoneses consideram um "expert" aquele chefe que, ao preparar o baiacu, consegue deixar uma pequena quantidade da toxina no peixe que será consumido, para provocar uma leve sensação de formigamento na boca de seus clientes. Ainda no Japão, considera-se uma prova de virilidade beber a mistura da gônoda do baiacu com saquê. Assemelha-se muito ao jogo "roleta-russa", pois não há como saber o grau de toxidade ou as chances de uma séria intoxicação sem uma prévia análise de cada "coquetel" preparado para a degustação. A ingestão da carne de baiacu é a principal causa, acidental ou proposital, de intoxicação fatal no Japão. De forma acidental, ocorre entre as pessoas que consomem o baiacu sem as necessárias precauções de limpeza e preparo. Propositadamente, fora os casos já mencionados anteriormente, ocorre para fins criminosos, para o sacrifício de animais domésticos doentes e para o suicídio humano. No Japão, o suicídio é uma forma honrosa para sair de situações sociais de total desonra moral. No Brasil, especialmente no Estado do Espírito Santo, o Baiacu-arara (Lagocephalus laevigatus) é consumido regularmente sem apresentar casos de intoxicação. Entretanto, existem trabalhos que atestam que sua toxidade varia de acordo com a época do ano. No verão, não costumam ser tóxicos, mas no inverno, podem apresentar alto grau de toxidez. É importante citar duas espécies de baiacu de pequeno porte, com ocorrência bastante comum em quase todo o litoral brasileiro (são mais raros na região sul), muito perigosas para o consumo humano; o Baiacu-pinima (Sphoeroides spengleri) que possui uma carne seriamente tóxica e o Baiacu-mirim (Sphoeroides testudineus) cuja carne, letalmente tóxica, é utilizada como veneno para o sacrifício de animais doentes. A importância desta citação específica, é que essas duas espécies são pescadas com frequência pelos pescadores amadores.
Aspectos Médicos
Na intoxicação pequena a moderada, a tetrodotoxina pode provocar desde um leve formigamento na boca até a queda da pressão sanguínea, com a consequente perda da força física. A fala e a respiração podem ser comprometidas. O entorpecimento, a dor de cabeça e os problemas gastrointestinais também são comuns nestas situações. Nos casos mais graves, a tetrodotoxina provoca a síndrome da paralisia neuromuscular, nas mais severas formas. A toxina age bloqueando a ação normal do sistema neural e das células cardíacas e a morte pode ocorrer devido ao colapso cardiorrespiratório. Os problemas neurais começam frequentemente com contrações musculares e podem progredir para a paralisia total. Nesses casos, a vítima fica imóvel (paralisada) mas com plena consciência de tudo que está acontecendo.
Prevenção
Por medida de precaução, deve-se evitar a consumo da carne da maioria das espécies de baiacu, baiacu-de-espinho e peixe-lua. Para os que apreciam e não desejam abster-se de sua carne, especialmente a do baiacu-arara, o cuidado na hora de limpar e estripar o peixe deve ser redobrado. Ao retirar seus órgãos internos, incluindo a vesícula biliar, deve-se ter a certeza de que os mesmos estão inteiros e intactos para que não haja contaminação da carne. A pele também deverá ser retirada por completo.
Tratamento
Como não há um antídoto específico para a tetrodotoxina, o tratamento a ser aplicado é a terapia de suporte baseada nos sintomas apresentados pela vítima. É muito similar ao tratamento da intoxicação por moluscos bivalves, já descrita. A rápida intervenção, quando o envenenamento ainda é recente, inclui a lavagem estomacal e a terapia de suporte para a respiração. Quando ocorre a paralisia respiratória, o suporte é necessário por pelo menos 24 horas. Os efeitos tóxicos usualmente desaparecem de forma espontânea quando a vítima permanece em terapia de suporte. As vítimas com a síndrome da paralisia neuromuscular (paralisia total) devem ser sedadas e colocadas em observação e constante suporte, pois não há um tratamento que seja efetivo nesses casos.
Esse tipo de envenenamento é uma das mais sérias formas de intoxicação. Dentre todos os seres marinhos venenosos, os baiacus estão entre os mais perigosos. O potente veneno, (tetrodotoxina) que está normalmente contido no fígado, no intestino, nas gônadas e na pele de algumas espécies, dependendo da época do ano, pode, quando ingerido em altas doses, provocar uma morte bastante rápida __ em até 15 minutos após a ingestão. No Japão, onde é chamado de "fugu", o baiacu é considerado uma iguaria. Pode ser encontrado em restaurantes especializados onde os chefes, experientes e altamente treinados, o preparam cuidadosamente para torná-lo bom para o consumo de seus fregueses. Os japoneses consideram um "expert" aquele chefe que, ao preparar o baiacu, consegue deixar uma pequena quantidade da toxina no peixe que será consumido, para provocar uma leve sensação de formigamento na boca de seus clientes. Ainda no Japão, considera-se uma prova de virilidade beber a mistura da gônoda do baiacu com saquê. Assemelha-se muito ao jogo "roleta-russa", pois não há como saber o grau de toxidade ou as chances de uma séria intoxicação sem uma prévia análise de cada "coquetel" preparado para a degustação. A ingestão da carne de baiacu é a principal causa, acidental ou proposital, de intoxicação fatal no Japão. De forma acidental, ocorre entre as pessoas que consomem o baiacu sem as necessárias precauções de limpeza e preparo. Propositadamente, fora os casos já mencionados anteriormente, ocorre para fins criminosos, para o sacrifício de animais domésticos doentes e para o suicídio humano. No Japão, o suicídio é uma forma honrosa para sair de situações sociais de total desonra moral. No Brasil, especialmente no Estado do Espírito Santo, o Baiacu-arara (Lagocephalus laevigatus) é consumido regularmente sem apresentar casos de intoxicação. Entretanto, existem trabalhos que atestam que sua toxidade varia de acordo com a época do ano. No verão, não costumam ser tóxicos, mas no inverno, podem apresentar alto grau de toxidez. É importante citar duas espécies de baiacu de pequeno porte, com ocorrência bastante comum em quase todo o litoral brasileiro (são mais raros na região sul), muito perigosas para o consumo humano; o Baiacu-pinima (Sphoeroides spengleri) que possui uma carne seriamente tóxica e o Baiacu-mirim (Sphoeroides testudineus) cuja carne, letalmente tóxica, é utilizada como veneno para o sacrifício de animais doentes. A importância desta citação específica, é que essas duas espécies são pescadas com frequência pelos pescadores amadores.
Aspectos Médicos
Na intoxicação pequena a moderada, a tetrodotoxina pode provocar desde um leve formigamento na boca até a queda da pressão sanguínea, com a consequente perda da força física. A fala e a respiração podem ser comprometidas. O entorpecimento, a dor de cabeça e os problemas gastrointestinais também são comuns nestas situações. Nos casos mais graves, a tetrodotoxina provoca a síndrome da paralisia neuromuscular, nas mais severas formas. A toxina age bloqueando a ação normal do sistema neural e das células cardíacas e a morte pode ocorrer devido ao colapso cardiorrespiratório. Os problemas neurais começam frequentemente com contrações musculares e podem progredir para a paralisia total. Nesses casos, a vítima fica imóvel (paralisada) mas com plena consciência de tudo que está acontecendo.
Prevenção
Por medida de precaução, deve-se evitar a consumo da carne da maioria das espécies de baiacu, baiacu-de-espinho e peixe-lua. Para os que apreciam e não desejam abster-se de sua carne, especialmente a do baiacu-arara, o cuidado na hora de limpar e estripar o peixe deve ser redobrado. Ao retirar seus órgãos internos, incluindo a vesícula biliar, deve-se ter a certeza de que os mesmos estão inteiros e intactos para que não haja contaminação da carne. A pele também deverá ser retirada por completo.
Tratamento
Como não há um antídoto específico para a tetrodotoxina, o tratamento a ser aplicado é a terapia de suporte baseada nos sintomas apresentados pela vítima. É muito similar ao tratamento da intoxicação por moluscos bivalves, já descrita. A rápida intervenção, quando o envenenamento ainda é recente, inclui a lavagem estomacal e a terapia de suporte para a respiração. Quando ocorre a paralisia respiratória, o suporte é necessário por pelo menos 24 horas. Os efeitos tóxicos usualmente desaparecem de forma espontânea quando a vítima permanece em terapia de suporte. As vítimas com a síndrome da paralisia neuromuscular (paralisia total) devem ser sedadas e colocadas em observação e constante suporte, pois não há um tratamento que seja efetivo nesses casos.
Outros Peixes
Além dos peixes já citados, a moreia, o peixe-cofre, o peixe-porco e o mamangá-liso podem, ocasionalmente, produzir o envenenamento quando ingeridos com a pele. Assim, por precaução, deve-se sempre retirar a pele desses animais antes do consumo. As gônodas dos bagres podem apresentar-se sazonalmente tóxicas para o consumo e devem sempre ser descartadas. O tratamento nestes casos deve ser de acordo com a sintomatologia apresentada pela vítima.
* Marcelo Szpilman é Biólogo Marinho, Diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor do Informativo do Instituto e autor dos livros Guia Aqualung de Peixes e Seres Marinhos Perigosos.